Sobre o tema
O fortalecimento da sociedade civil organizada permanece como um dos grandes desafios estruturais da filantropia no Brasil. Apesar da crescente relevância das organizações da sociedade civil (OSCs) na implementação de políticas públicas, na inovação social e na defesa de direitos, apenas 17% do investimento social privado no país é destinado ao desenvolvimento institucional dessas organizações, segundo dados do Censo GIFE 2025. Esse cenário é agravado pelo fato de que poucos doadores apoiam organizações intermediárias e iniciativas voltadas à infraestrutura do setor, elemento fundamental para a sustentabilidade, a articulação e a qualificação da atuação coletiva.
Análises internacionais apontam que uma filantropia efetiva precisa ir além do financiamento de projetos pontuais e se orientar por uma lógica sistêmica. De acordo com a WINGS (Worldwide Initiatives for Grantmaker Support), dois pilares são essenciais para o fortalecimento do campo filantrópico: a consolidação de ecossistemas de apoio à filantropia, compostos por organizações intermediárias, redes e associações que oferecem suporte técnico, produção de conhecimento e advocacy e a construção de um ambiente habilitador (enabling environment), com políticas, normas e incentivos que estimulem a doação, a colaboração e a liberdade de atuação das organizações da sociedade civil.
Essa perspectiva ganha centralidade no relatório Philanthropy Transformation Initiative (PTI), publicado pela WINGS, que propõe uma mudança de paradigma no campo: a filantropia deve deixar de ser apenas executora de ações e assumir um papel facilitador (enabler) da transformação social. O documento convoca financiadores e organizações adotarem práticas mais transparentes, colaborativas e alinhadas a uma visão de mudança sistêmica, orientadas por princípios como transparência e responsabilização, confiança e redistribuição de poder, investimento no fortalecimento dos ecossistemas de doação, coerência entre governança, cultura organizacional e valores, e foco nas causas estruturais dos desafios
sociais.
No contexto brasileiro, essa abordagem revela-se particularmente relevante diante das fragilidades institucionais que marcam parte significativa das OSCs e da baixa consolidação de uma cultura de doação ampla, diversa e sustentável. Fortalecer a infraestrutura do setor e os atores que o articulam é condição necessária para ampliar impactos, reduzir desigualdades de poder e garantir a vitalidade democrática da sociedade civil.
É a partir dessa compreensão que, em nossa frente de fortalecimento da sociedade civil, direcionamos esforços para o estímulo da cultura de doação e para o apoio às organizações que estruturam o campo filantrópico, além de uma atuação protagonista na regulamentação do setor. Acreditamos que investir nessas organizações é um caminho estratégico para transformar hábitos, valores e práticas da sociedade, ampliando a capacidade coletiva de enfrentar desafios complexos. Em 2025, esse compromisso se concretizou no apoio a 18 projetos nessa frente, fortalecendo ecossistemas, redes e iniciativas que sustentam uma filantropia mais colaborativa, transparente e orientada à transformação sistêmica.