A solidariedade faz parte da realidade dos brasileiros, mas ainda acontece, majoritariamente, quando há uma emergência capaz de mobilizar o país. Essa é uma das principais conclusões da terceira edição da pesquisa nacional ‘Retrato da Solidariedade: Comportamento Pró-social no Brasil‘, lançada no dia 7 de julho, no Itaú Cultural, em São Paulo.
Coordenado pelo Laboratório de Comportamento Pró-social e Políticas Públicas do Instituto Pensi e com apoio do Infinis, o estudo acompanha anualmente como a população brasileira pratica diferentes formas de comportamento solidário, como doações financeiras, doação de bens, voluntariado e outras iniciativas de apoio às Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Desde a primeira edição, mais de 7,5 mil brasileiros já participaram da pesquisa, que utiliza entrevistas presenciais em domicílios em todas as regiões do país.
Durante o evento de lançamento, a diretora do Infinis, Márcia Kalvon, participou de um painel ao lado do coordenador da pesquisa, Flávio Pinheiro, e dos pesquisadores do Laboratório de Comportamento Pró-social e Políticas Públicas Gustavo Araújo, pesquisador associado, e Ivan Fernandes, pesquisador afiliado. O debate abordou os desafios para ampliar a cultura de doação e fortalecer a sociedade civil brasileira.
Entre os principais resultados desta edição, chama atenção um conceito apresentado pelos pesquisadores: a generosidade reativa. Os dados mostram que a solidariedade costuma crescer diante de tragédias, campanhas e pedidos de ajuda, mas perde força quando essas situações deixam de ocupar o centro do debate público. Em outras palavras, existe disposição para ajudar, porém ela ainda depende de estímulos constantes. A pesquisa aponta que sete em cada dez brasileiros afirmam nunca conversar sobre doações, enquanto 67% dizem não receber pedidos de contribuição de organizações sociais.
Essa dinâmica também aparece nos indicadores gerais. Em 2025, 55,5% dos brasileiros realizaram algum tipo de apoio a organizações da sociedade civil por meio de doação financeira, de bens ou trabalho voluntário, percentual ligeiramente inferior ao registrado no ano anterior, marcado pela mobilização nacional em resposta às enchentes no Rio Grande do Sul. Ainda assim, o estudo mostra que a solidariedade permanece como um comportamento presente na sociedade brasileira, embora sensível ao contexto e às grandes mobilizações.
Para o Infinis, os resultados reforçam a importância de investir não apenas em respostas a crises, mas também no fortalecimento de uma cultura permanente de participação social. Instituições filantrópicas, organizações da sociedade civil e diferentes atores do ecossistema têm papel fundamental para ampliar a confiança nas organizações, aproximar as pessoas das causas e criar oportunidades para que a doação faça parte da vida cotidiana dos brasileiros.
A terceira edição da pesquisa evidencia um sinal de alerta para o campo da sociedade civil. Após avanços observados em contextos de mobilização diante de emergências, alguns indicadores voltaram a cair, mostrando que essa expansão não se consolidou. As organizações da sociedade civil são parceiras fundamentais do Estado na promoção de direitos, na redução das desigualdades e na construção de políticas públicas mais efetivas. Fortalecê-las é fortalecer a democracia e a proteção social. — ressalta Márcia Kalvon.
Outro achado relevante é que o principal obstáculo não parece ser a falta de interesse em contribuir, mas a baixa circulação do tema. Além de conversarem pouco sobre doações, muitos brasileiros simplesmente não são convidados a participar. Segundo os pesquisadores, essa combinação reduz o chamado “contágio social” da solidariedade, quando ver outras pessoas doando ou ser convidado a contribuir aumenta a probabilidade de também realizar uma doação.
Ao apoiar iniciativas como o Retrato da Solidariedade, o Infinis reafirma seu compromisso com o fortalecimento da sociedade civil e com a produção de evidências capazes de qualificar o debate sobre filantropia, comportamento social e desenvolvimento de políticas públicas. Com uma série histórica construída ao longo de três edições consecutivas, a pesquisa oferece informações inéditas para organizações, pesquisadores, financiadores e gestores públicos compreenderem como evolui a cultura de doação no Brasil e quais caminhos podem contribuir para torná-la mais sólida e duradoura.