Por Amanda Gregorio, Analista de Projetos do Infinis. Conselheira Nacional da Juventude (CONJUVE), ocupando a cadeira da Saúde enquanto representante da sociedade civil. Foi indicada como delegada da trilha de Saúde Global e Segurança Alimentar no Youth 20 (Y20) Summit USA, grupo oficial de engajamento jovem do G20.

Políticas nunca conseguirão responder satisfatoriamente às demandas sociais se não envolverem, na sua formulação, as pessoas que lidam com os problemas que buscam solucionar. E, quando falamos de futuro, isso fica ainda mais evidente: não faz sentido decidir o amanhã sem ouvir quem vai vivê-lo por mais tempo. Por isso, neste Dia Internacional da Juventude, quero propor uma mudança de perspectiva. Em vez de nos enxergarem apenas como “os líderes de amanhã”, que tal reconhecer que nós já somos lideranças hoje? Já estamos nas escolas, nos territórios, nas organizações, nos serviços de saúde, nos coletivos e nos espaços de decisão. Já temos perguntas, ideias, incômodos e sonhos que podem, e devem, ajudar a transformar o presente.

Ser jovem é viver uma fase de descobertas, de formação, de construção de vínculos e também de uma certa coragem para imaginar que as coisas podem ser diferentes. É quando criamos relações com a comunidade, entendemos melhor nosso território e começamos a perceber quais questões nos mobilizam. Eu acredito muito nessa potência. Não porque jovens tenham todas as respostas (não temos!), mas porque carregamos experiências e perspectivas que outras gerações não conseguem reproduzir por nós. E, quando nossas vozes ficam de fora, as políticas também perdem a chance de compreender uma parte essencial da realidade. No Brasil, o Estatuto da Juventude, instituído em 2013, reconhece esse papel ao garantir, entre outros direitos, a participação social e política e o envolvimento dos jovens na formulação, execução e avaliação de políticas públicas.

Tenho cada vez mais certeza da potência da juventude quando vejo experiências como o RAP da Saúde, no Rio de Janeiro, em que jovens atuam como promotores de saúde em seus territórios; os Adocs – Adolescentes Comunicadores de Saúde, em Fortaleza; o Ecoa, que forma jovens para promover saúde mental e advocacy; o CRIA, em Santa Luzia do Itanhy (SE), que trabalha com adolescentes e novas lideranças; ou a Serenas, que nasceu do sonho de jovens mulheres de criar ambientes mais seguros para meninas e mulheres. O que mais me inspira nessas iniciativas não é só o impacto que elas geram, mas a mensagem que carregam: quando se oferece espaço, confiança e oportunidade, jovens não ficam esperando alguém mudar o mundo por eles. Eles começam a mudar.

É por isso que oportunidade importa tanto. Uma oportunidade pode ser o primeiro convite para participar de uma reunião, apresentar uma ideia, construir uma campanha ou representar uma comunidade. E pode parecer pequena para quem está de fora, mas, para quem recebe esse espaço, ela pode mudar completamente a forma de enxergar o próprio lugar no mundo. Participar também ensina. Ensina a ouvir, argumentar, negociar, construir junto e assumir responsabilidade. Liderança não começa quando alguém ganha um cargo ou chega a determinada idade. Muitas vezes, começa no momento em que alguém olha para um jovem e diz: “sua voz importa aqui.”

E talvez seja aí que nós também precisemos provocar um pouco os mais velhos. Existe aquele “adulto pro max” que acredita que, por ter vivido mais, precisa o tempo todo orientar, ensinar, corrigir e mostrar o caminho. E, claro, experiência importa. Eu mesma aprendo muito com pessoas que vieram antes de mim. Mas, acho que a relação entre gerações fica muito mais rica quando a troca acontece nos dois sentidos. Quando um adulto consegue ouvir uma ideia jovem sem responder imediatamente que ela não vai funcionar. Quando pergunta, antes de explicar. Quando aceita que talvez ainda tenha algo a aprender sobre o mundo que está mudando diante dos seus olhos.

Então, neste Dia Internacional da Juventude, meu convite é menos para celebrar a juventude e mais para abrir espaço para ela. Pergunte a um jovem o que ele mudaria no lugar onde vive. Que futuro gostaria de construir. Que problema ninguém parece estar enxergando. E escute de verdade, sem transformar a conversa imediatamente em conselho. Nós, jovens, ainda temos muito a aprender com quem veio antes, mas também temos muito a contribuir agora. O futuro está sendo construído neste momento. E nós já estamos aqui.