O Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, organização do sistema da Fundação José Luiz Setúbal, realizou nesta terça-feira, 30 de setembro de 2025, o 7º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância, na Pinacoteca de São Paulo. Autoridades nacionais, especialistas, acadêmicos e representantes do terceiro setor se reuniram para debater a situação atual da segurança alimentar no Brasil, especialmente em um cenário pós-pandemia, e possíveis soluções intersetoriais para questões relacionadas a merenda escolar, infâncias na Amazônia e desnutrição e obesidade infantil. 

O presidente da Fundação José Luiz Setúbal abriu o evento chamando atenção para os desafios da insegurança alimentar na infância e de seus impactos duradouros ao longo da vida. “Embora o Brasil tenha saído do mapa da fome da ONU, quase 600 mil crianças de até 5 anos ainda enfrentam insegurança alimentar grave, ou seja, passam fome”, afirmou o filantropo dr. José Luiz Setúbal. Ele também alertou para o crescimento da obesidade infantil, outro fenômeno que desafia as autoridades e profissionais da saúde, que já afeta cerca de 400 mil crianças brasileiras nessa faixa etária. “O enfrentamento da insegurança alimentar infantil requer ações integradas e intersetoriais, envolvendo o governo, sociedade civil e família”, reforçou.  

Desnutrição e obesidade: desafios atuais 

Apesar da subnutrição no Brasil estar diminuindo, o relatório “Alimentando Lucro: Como os Ambientes Alimentares estão Falhando com as Crianças, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), alertou para um dado alarmante e histórico: pela primeira vez, a obesidade supera a desnutrição como forma predominante de má nutrição entre crianças e adolescentes em idade escolar no mundo. Segundo o relatório, o avanço do excesso de peso é mais acentuado em países de baixa e média renda, onde vivem mais de 80% das crianças com sobrepeso entre 5 e 19 anos. 

Sobre este tema, o fundador do Instituto Fome Zero, Walter Belik, fez uma análise histórica das políticas alimentares brasileiras, desde as descobertas do intelectual Josué de Castro, nos anos 1940, até os dias atuais, em que o Brasil saiu do Mapa da Fome. Ele também analisou como a mudança na dieta alimentar do brasileiro e até o custo de uma dieta saudável influenciaram ao longo do tempo a existência de crianças subnutridas no país, ao mesmo tempo que aumentou o número de crianças com obesidade.  

“O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas tem uma das cestas saudáveis mais caras. Isso é um paradoxo que precisa ser enfrentado com políticas públicas eficazes”, afirmou Belik. Segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o custo de uma alimentação saudável no Brasil supera em 43% o salário-mínimo para uma família de quatro pessoas, sendo o mais alto da América Latina e Caribe, com US$ 4,69 per capita/dia. 

Beliz também apresentou dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) que mostram que, entre 2002 e 2018, a participação de ultraprocessados nas calorias totais aumentou 3,6 pontos percentuais, enquanto os alimentos in natura perderam espaço. “Os hábitos alimentares estão mudando. A monotonia não está só no prato, está na forma como escolhemos e compramos alimentos”, explicou. 

A secretária Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social do Combate à Fome, Lilian Rahal, reforçou que o enfrentamento da má nutrição infantil exige uma abordagem sistêmica e intersetorial. Ela destacou que a alimentação saudável não pode ser tratada apenas como uma escolha individual, mas como resultado de políticas públicas que garantam acesso físico e econômico aos alimentos. “A fome e a obesidade são expressões de um sistema alimentar que não está funcionando. Precisamos de uma política de abastecimento que reconecte produção e consumo, com circuitos curtos e valorização da agricultura familiar”, afirmou. 

Rahal também alertou para o papel das plataformas digitais na comercialização de alimentos, que já representam 11% do varejo e dobram de tamanho a cada ano. Segundo ela, esse novo espaço pode ampliar o acesso a alimentos saudáveis, mas também representa riscos de concentração e exposição a ultraprocessados. 

Para Márcia Kalvon, diretora executiva do Infinis, o tema da segurança alimentar é central para a atuação do instituto. Ouvir especialistas, atores que estão no território e os agentes do governo é essencial para as estratégias do Infinis em contribuir com o acesso à alimentação saudável de crianças e adolescentes no Brasil. “O Fórum é um momento especial de parada e reflexão estratégica para orientar nossas ações futuras nessa temática”, disse. 

O debate sobre a temática também contou com Kelly Poliany Alves, coordenadora geral de Alimentação e Nutrição no Ministério da Saúde, e Stephanie Amaral, oficial de Saúde e Nutrição do UNICEF no Brasil. 

Segurança alimentar das crianças da Amazônia 

Outro assunto discutido no evento foi a segurança alimentar das crianças da Amazônia, região que enfrenta desafios para a alimentação infantil devido a logística e questões ambientais, especialmente para a população indígena e de comunidades tradicionais. 

Em 2021, mais de 50% das crianças Yanomami se encontrava em situação de desnutrição aguda, e o debate expandiu sobre como garimpo, demarcação de terras e dificuldade de acesso a programas como Bolsa Família podem ser desafios para a insegurança alimentar desse e de outros grupos autóctones do Brasil. 

Adelina Fidelis, liderança indígena e presidente da MAPANA – Associação de Mulheres Indígenas, apresentou a perspectiva da comunidade Ticuna, povo indígena mais numeroso da Amazônia brasileira localizado no tríplice fronteira nas margens do rio Solimões. De acordo com ela, a comunidade trabalha com produção indígena tradicional de alimentos saudáveis com o potencial de serem distribuídos em escolas, como a macaxeira, inhame e batata doce. A MAPANA conseguiu fazer uma  mobilização para que a produção da comunidade passasse a ser vendida e incluída na alimentação escolar regional por meio  do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que já entrou em vigor em 2025. Apesar das conquistas já estabelecidas, Adelina criticou a presença de ultraprocessados e comidas sem repertório cultural, como refrigerantes, nas merendas dos jovens de sua comunidade. “Na escola tradicional não podemos deixar de ter alimento tradicional. A escola precisa ter a nossa cultura alimentar”, afirmou. 

A mesa contou com moderação de Alexandre Ramos, gerente de projetos no Instituto Comida do Amanhã. Participaram também Anderson Serra, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Neideana Ribeiro, Oficial de Saúde e Nutrição do UNICEF no escritório de Manaus, Dora Lima, antropóloga do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami.  

Alimentação escolar e má nutrição  

A discussão sobre alimentação nas escolas foi pautada pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), política pública que garante refeições e ações de educação alimentar e nutricional a estudantes de todas as etapas da educação básica pública, atendendo cerca de 40 milhões de crianças e adolescentes brasileiros. O programa tem como diretrizes a alimentação saudável e adequada, inclusão da educação alimentar e direito a alimentação escolar e apoio ao desenvolvimento sustentável, com cerca de 30% dos recursos para compra de alimentos destinados à produção de agricultura familiar e apenas 15% permitido a ultraprocessados em 2025.  

Pedro Vasconcelos, secretário geral da Organização pelo Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequadas (FIAN Brasil) e participante do Núcleo Executivo do Observatório da Alimentação Escolar (ÓAÊ), reforça a importância do PNAE ao mesmo tempo em que traz luz para alguns problemas de sua execução, como a dificuldade de cumprir o requisito de mínimo de 30% de alimentos provenientes de agricultura familiar, problemas com regularidade, quantidade e qualidade da oferta de alimentos em várias escolas e desigualdades persistentes na implementação. Para a mitigação desses problemas, Pedro destaca a relevância da sociedade civil para o fortalecimento da política. Os órgãos que representa se dedicam ao monitoramento e levantamento de dados a partir de escutas coletivas e parcerias com centros de pesquisa, além do advocacy e articulação política em defesa do direito a alimentação escolar. “A segurança alimentar é uma missão e direito que devemos exigir sempre, afinal, a alimentação adequada está relacionada com outros direitos como o aprendizado e uma vida plena”, disse. 

O debate também contou com a contribuição de Larissa Loures, professora adjunta do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Jordana de Oliveira Costa, responsável técnica pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) no âmbito do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), com moderação de Renata Couto, diretora executiva do Instituto Desiderata. 

Por fim, o evento do Infinis encerrou com um debate sobre o enfrentamento a má nutrição infantil.  

Foi anunciado em julho de 2025 que o Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU), indicador em que estava desde 2021. Roseane Cunha, diretora do Departamento de Gestão do Programa Bolsa Família na Secretaria Nacional de Renda de Cidadania do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), acredita que o programa Bolsa Família teve um papel preponderante para isso. Cunha demonstrou como o trabalho intersetorial contribui com o enfrentamento à insegurança alimentar, unindo ações em saúde, educação, assistência social e inclusão produtiva. “O Bolsa Família não é apenas uma transferência de renda, também é garantia de segurança social e alimentícia”, disse. “A partir da proteção social, queremos que as próximas gerações não precisem do Bolsa Família”. 

Outra política pública que contribui com a segurança alimentar de jovens analisada no debate foi o Curso de Formação de Adolescentes e Jovens Promotores da Saúde (RAP da Saúde). Trata-se de um projeto da Superintendência de Promoção da Saúde (SPS) da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS-Rio) que seleciona e qualifica adolescentes e jovens entre 14 e 24 anos em temas relacionados à promoção da saúde, prevenção de doenças e agravos, direitos humanos, cidadania e cultura. Nathália Amorim, jovem de 23 anos que é coordenadora do RAP da Saúde e ex-participante do curso, afirmou que existe uma lacuna na comunicação e letramento de saúde para adolescência. “Como um adolescente vai aprender e multiplicar hábitos de alimentação saudável se ele não sabe o impacto que isso vai ter na comunidade dele?”, defende, afirmando sobre a capacidade de engajar adolescentes do RAP. “Acreditamos que o adolescente tem total potência para atuar nos espaços de política desde que tenha formação”. 

O painel ainda destacou soluções de fortalecimento de políticas públicas e hábitos alimentares saudáveis como combate à desnutrição e obesidade infantil. Contribuíram com o debate Janaína Braga, pesquisadora da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) e Kátia Romanelli, que trabalha na Coordenadoria de Alimentação Escolar da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, com moderação de Murilo Bomfim, gerente de comunicação do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS) da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).  

A íntegra do evento pode ser assistida pelo YouTube (clique aqui).