Compreender como a sociedade percebe a violência contra crianças e adolescentes é um passo fundamental para enfrentar um problema que, muitas vezes, permanece invisível justamente por ser naturalizado. É com esse objetivo que o Infinis lançou a segunda edição da pesquisa Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes no Brasil, realizada em parceria com a Quaest.

O evento de lançamento, que aconteceu no Auditório Itaúsa no dia 14 de julho, reuniu lideranças da sociedade civil, pesquisadores e especialistas que atuam na agenda de prevenção às violências. A apresentação foi conduzida por Márcia Kalvon, diretora executiva do Infinis, e Felipe Nunes, CEO da Quaest, que compartilharam os principais resultados do estudo e refletiram sobre o papel das evidências na construção de políticas públicas para a prevenção das violências contra crianças e adolescentes.

Entender como a população pensa e reage quando falamos sobre violência contra crianças e adolescentes é fundamental para refletirmos sobre como nós, enquanto fundação privada, podemos contribuir para qualificar esse debate público. – afirmou Márcia Kalvon.

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O que mostram os dados

Realizada com 2.202 brasileiros de todas as regiões do país, a pesquisa buscou compreender como a sociedade percebe a infância, a adolescência, a violência e as formas de educar crianças. Mais do que medir opiniões, o estudo investiga como experiências vividas ao longo da vida moldam comportamentos e valores sociais que seguem presentes na sociedade brasileira.

Os resultados mostram que há um consenso em torno da importância do diálogo e do cuidado, mas também revelam uma convivência preocupante com práticas que configuram violência.

Embora 91% dos brasileiros considerem que conversar é a forma ideal de educar, ainda há uma parcela significativa que considera aceitáveis comportamentos como gritar, ameaçar bater ou utilizar punições físicas em determinadas situações. Na realidade, muitos reconhecem já ter recorrido justamente a essas práticas.

Outro dado que chama atenção é a dificuldade da população em intervir diante de situações públicas de violência. Para 62% dos entrevistados, a reação mais provável ao presenciar uma criança apanhando ou levando um puxão de orelha na rua é não se envolver. Entre os principais motivos apontados estão a percepção de que “cada um sabe da própria vida” e o constrangimento de interferir na forma como outras famílias educam seus filhos. O dado reforça que, apesar dos avanços na conscientização sobre a violência infantojuvenil, muitas dessas situações ainda são tratadas como um assunto privado, enfraquecendo a responsabilidade coletiva no enfrentamento das violências.

O ciclo da violência

O estudo também evidencia que a violência pode se perpetuar entre gerações. Pessoas que vivenciaram práticas punitivas durante a infância tendem, em média, a aceitar e reproduzir formas mais rígidas de educação quando adultas. Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que essa trajetória não é inevitável: muitos rompem esse ciclo, reforçando a importância de políticas públicas, apoio às famílias e estratégias de cuidado que promovam relações mais saudáveis e protetivas.

Ao reunir novas evidências, a pesquisa amplia a compreensão sobre os desafios da prevenção às violências e oferece subsídios para qualificar o debate público, fortalecer organizações da sociedade civil e apoiar a formulação de políticas voltadas à garantia dos direitos de crianças e adolescentes.

  • Os resultados do estudo serão aprofundados durante o 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância, que acontece em 30 de setembro e reunirá especialistas, gestores públicos e representantes da sociedade civil para discutir caminhos para a construção de infâncias mais seguras, saudáveis e protegidas.