A Fundação José Luiz Setúbal apoiou a realização do II Seminário Estadual sobre Saúde Mental e Bem Viver da Juventude Indígena em Roraima, promovido pelo Departamento de Juventude do Conselho Indígena de Roraima (CIR) entre os dias 28 de maio e 1 de junho de 2026. O encontro reuniu aproximadamente 240 jovens indígenas de diferentes regiões do estado para discutir desafios relacionados à saúde mental e construir propostas voltadas à promoção do bem viver nas comunidades.

Como resultado do seminário, será elaborado um caderno de recomendações que servirá de subsídio para políticas públicas e ações comunitárias, refletindo as demandas, perspectivas e propostas da juventude indígena de Roraima. Representando a Fundação José Luiz Setúbal participaram do evento Amanda Gregorio, analista de projetos do Infinis, e Ana Bersani, antropóloga e uma das pesquisadoras principais do Instituto Pensi.

A realização do seminário ocorre em um contexto de importantes desafios para a juventude indígena. Segundo o Censo 2022, metade da população indígena brasileira tem menos de 25 anos, revelando uma estrutura etária mais jovem do que a média nacional e reforçando a importância de políticas públicas voltadas para esse público.

Apesar de sua relevância demográfica, social e cultural, jovens indígenas ainda enfrentam obstáculos históricos relacionados ao acesso à educação, à saúde, à proteção social e à participação política.

Em Roraima, estado que concentra a maior proporção de população indígena do país (15,3% da população total), esses desafios são agravados por conflitos territoriais, pela presença do garimpo ilegal, pela violência contra lideranças indígenas, pelo aliciamento de jovens para atividades ilícitas, pelo racismo e pelas fragilidades na oferta de serviços públicos em áreas remotas.

O cenário também é marcado por elevados índices de violência. Dados recentes apontam que Roraima registrou o maior número de assassinatos de indígenas do Brasil em 2024, contribuindo para sentimentos coletivos de insegurança, medo e luto em diversas comunidades.

Nesse contexto, a saúde mental tem se consolidado como uma preocupação crescente. Estudos indicam que jovens indígenas apresentam 2,7 vezes mais chances de cometer suicídio em comparação com a média da população brasileira. Organizações indígenas e parceiros locais também relatam o aumento de situações de sofrimento psíquico entre adolescentes e jovens. 

O seminário mostrou que os desafios da saúde mental entre jovens indígenas estão profundamente relacionados às transformações que afetam seus territórios e modos de vida. Para o Instituto Pensi, experiências como essa são fundamentais para qualificar a produção de conhecimento e ampliar a capacidade de compreender a saúde e o bem viver a partir das realidades concretas. As discussões realizadas ao longo do encontro também evidenciaram a capacidade das próprias comunidades de produzir reflexões, estratégias e caminhos de cuidado a partir de seus conhecimentos e experiências. Esse é um princípio que orienta as pesquisas desenvolvidas pelo nosso Laboratório: construir conhecimento em diálogo com as pessoas diretamente afetadas pelos desafios que buscamos compreender”, destaca a antropóloga Ana Elisa Bersani.  

Além disso, a distância geográfica entre comunidades e serviços de saúde, a escassez de profissionais especializados e a necessidade de abordagens culturalmente adequadas ainda limitam o acesso ao cuidado em saúde mental. 

Para o Infinis, iniciativas como essa reforçam a importância de apoiar organizações que atuam diretamente nos territórios, especialmente em contextos em que a presença do Estado e de outras instituições é limitada. A partir do fortalecimento das organizações de base indígena, que detém o conhecimento contextual e legitimidade junto às comunidades, é possível ampliar a incidência de suas agendas e potencializar o alcance de suas ações na defesa de direitos. 

 “Apoiar iniciativas como esta significa fortalecer o protagonismo da juventude indígena na construção de soluções para os desafios que afetam seus territórios. Ao promover espaços de escuta, participação e construção coletiva, o Infinis reafirma seu compromisso com a promoção da saúde e do bem viver de crianças, adolescentes e jovens, valorizando os saberes, as culturas e as formas de organização das comunidades”, destaca Amanda Gregorio, analista de projetos do Infinis.